O Sistema Único de Saúde começou a reforçar sua preparação para os impactos do El Niño 2026-2027, que pode trazer uma combinação de calor extremo, estiagens, queimadas, tempestades e enchentes para diferentes regiões do Brasil.
No início de setembro, o Ministério da Saúde reuniu gestores dos 26 estados e do Distrito Federal para avançar na elaboração de planos estaduais de enfrentamento adaptados aos riscos de cada território.
O alerta ganhou ainda mais peso porque o boletim conjunto de órgãos federais aponta mais de 90% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte entre setembro e novembro de 2026.
Para o SUS, o problema não é apenas o clima.
É o efeito que esses eventos podem provocar sobre hospitais, postos de saúde, ambulâncias, estoques de medicamentos e demanda por atendimento.
Por que o El Niño preocupa tanto a saúde pública?
O El Niño altera padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões.
No Brasil, o Ministério da Saúde trabalha com cenários bastante diferentes:
- Norte e Centro-Oeste: seca, estiagem e queimadas;
- Nordeste: aprofundamento da seca e calor;
- Sudeste: ondas de calor e temporais;
- Sul: chuvas intensas e maior risco de inundação.
Cada cenário produz problemas de saúde diferentes.
Isso significa que não existe um único plano nacional que possa ser aplicado exatamente da mesma maneira em todo o país.
O risco maior está entre outubro de 2026 e março de 2027
O plano apresentado pelo Ministério da Saúde trabalha com uma janela considerada crítica entre outubro de 2026 e março de 2027.
Nesse período, os efeitos do fenômeno podem se intensificar e gerar eventos extremos de maior duração.
Por isso, o objetivo do governo é preparar a rede antes que hospitais sejam pressionados.
Os 26 estados e o DF estão preparando planos próprios
Em 1º de setembro, o Ministério da Saúde mobilizou gestores de todos os estados e do Distrito Federal para avançar nos Planos Estaduais de Enfrentamento ao El Niño.
A ideia é que cada território identifique:
- riscos prioritários;
- regiões mais vulneráveis;
- capacidade dos hospitais;
- estoques de medicamentos;
- equipes disponíveis;
- rotas alternativas;
- necessidade de apoio federal.
Isso permite antecipar problemas em vez de reagir apenas depois do desastre.
Ondas de calor podem aumentar internações
Temperaturas extremas afetam diretamente o corpo humano.
Entre os problemas estão:
- desidratação;
- insolação;
- queda de pressão;
- agravamento de doenças cardíacas;
- agravamento de doenças respiratórias.
O Ministério da Saúde destaca que crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas estão entre os grupos mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos.
Quando uma onda de calor dura vários dias, pronto-atendimentos podem receber mais pacientes simultaneamente.
Idosos são especialmente vulneráveis
O envelhecimento da população brasileira aumenta a preocupação.
Pessoas idosas tendem a ter mais dificuldade para regular a temperatura corporal e também apresentam maior prevalência de doenças cardiovasculares e respiratórias.
Além disso, muitos utilizam medicamentos que podem interferir na hidratação ou pressão arterial.
Por isso, ondas de calor podem exigir acompanhamento reforçado justamente de uma população que já utiliza bastante o sistema de saúde.
Queimadas podem lotar unidades com problemas respiratórios
No Norte e Centro-Oeste, a preocupação inclui seca e incêndios florestais.
A fumaça aumenta a concentração de partículas no ar.
Isso pode piorar casos de:
- asma;
- bronquite;
- rinite;
- doenças pulmonares;
- problemas cardiovasculares.
O Ministério da Saúde inclui doenças respiratórias entre os principais efeitos das emergências climáticas sobre a população.
Em períodos de fumaça intensa, crianças e idosos costumam estar entre os grupos mais afetados.
Enchentes criam outro conjunto de doenças
No Sul e em áreas sujeitas a temporais, o risco muda.
Grandes inundações aumentam a exposição da população a água contaminada.
Entre as doenças associadas estão:
- leptospirose;
- hepatite A;
- doenças diarreicas;
- tétano;
- dengue.
Além disso, entulho e deslocamento de animais podem aumentar acidentes com escorpiões, aranhas e serpentes.
Por isso, o impacto sobre hospitais pode continuar mesmo depois que a água baixa.
Leptospirose pode aparecer dias depois
Esse é um dos problemas mais conhecidos após enchentes.
A bactéria responsável pela leptospirose pode estar presente na água contaminada pela urina de animais infectados, principalmente ratos.
A pessoa pode entrar em contato enquanto limpa a casa, atravessa áreas inundadas ou manipula objetos contaminados.
Os sintomas podem aparecer posteriormente.
Isso significa que a demanda por atendimento pode continuar crescendo dias após o evento climático.
Água contaminada também aumenta doenças gastrointestinais
Enchentes podem comprometer:
- abastecimento;
- reservatórios;
- alimentos;
- redes de esgoto.
Isso eleva o risco de doenças transmitidas por água e alimentos.
Em situações de desastre, hospitais e unidades básicas precisam atender ao mesmo tempo pessoas feridas, desalojadas e pacientes com infecções.
Essa combinação aumenta a pressão sobre a rede.
O mosquito também entra na conta
Eventos climáticos podem alterar a distribuição de mosquitos transmissores de doenças.
O Ministério da Saúde alerta que mudanças em temperatura e precipitação podem ampliar condições favoráveis para vetores ligados a:
- dengue;
- chikungunya;
- zika;
- malária.
Depois de períodos de chuva, recipientes e áreas com água parada podem favorecer a reprodução do Aedes aegypti.
Calor também influencia doenças transmitidas por vetores
Temperaturas mais altas podem acelerar parte do ciclo de vida dos mosquitos.
Mas a relação não é simples.
Calor extremo, chuva e disponibilidade de água interagem de formas diferentes conforme a região.
Por isso, os planos estaduais precisam considerar condições locais em vez de apenas uma previsão nacional.
Secas também pressionam o SUS
Nem todo impacto do El Niño envolve excesso de chuva.
No Nordeste, Norte e Centro-Oeste, a falta de água pode ser um problema ainda maior.
Secas prolongadas afetam:
- abastecimento;
- higiene;
- produção de alimentos;
- qualidade da água;
- saúde respiratória.
Elas também aumentam o risco de incêndios florestais.
Falta de água pode comprometer hospitais
Hospitais dependem de abastecimento constante.
Água é necessária para:
- higienização;
- esterilização;
- preparo de alimentos;
- atendimento aos pacientes;
- limpeza de ambientes.
Em uma crise prolongada, unidades de saúde precisam garantir fontes alternativas e estoques.
Esse tipo de logística faz parte do planejamento para emergências.
Medicamentos também podem ser afetados
O Ministério da Saúde publicou orientações específicas para proteger a Rede de Frio de Imunobiológicos diante dos eventos extremos associados ao El Niño.
Vacinas e outros produtos precisam permanecer dentro de faixas específicas de temperatura.
Uma enchente pode interromper energia.
Uma onda de calor pode elevar a temperatura das instalações.
Uma estrada bloqueada pode atrasar entregas.
Por isso, a emergência climática também se transforma em problema logístico.
O SUS terá salas de situação
O plano federal prevê a atuação da Sala de Situação de Emergências Climáticas e da estrutura de Saúde e Clima do Ministério.
Esses centros devem acompanhar informações meteorológicas e sanitárias e ajudar a coordenar respostas entre União, estados e municípios.
A lógica é combinar:
previsão do clima + dados de saúde + capacidade hospitalar.
Isso pode permitir resposta mais rápida quando determinado risco aumenta.
Força Nacional do SUS também será mobilizada
Outro eixo é a Força Nacional do SUS, a FN-SUS.
O plano prevê bases regionais capazes de deslocar equipes para áreas atingidas por emergências.
Em setembro, o Rio de Janeiro recebeu a terceira base regional da FN-SUS.
Segundo o Ministério da Saúde, a unidade pode aumentar em até 20 vezes a capacidade de pronta resposta da força no Sudeste e permitir chegada a qualquer localidade da região em até 12 horas quando acionada.
Outras seis bases ainda estão previstas
Porto Alegre e Salvador já possuíam bases em funcionamento.
Além da nova unidade do Rio, outras seis bases regionais estavam previstas até o fim de 2026.
A estratégia é descentralizar as equipes.
Em uma emergência, cada hora economizada no deslocamento pode ser importante.
Por que hospitais podem lotar rapidamente?
Um desastre climático cria vários tipos de pacientes ao mesmo tempo.
Durante uma enchente, por exemplo, o hospital pode receber:
- pessoas feridas;
- pacientes com doenças infecciosas;
- pessoas desidratadas;
- pacientes crônicos que perderam medicamentos;
- vítimas de acidentes;
- pessoas em sofrimento psicológico.
Ao mesmo tempo, funcionários do próprio hospital também podem ser afetados.
Isso reduz a capacidade da unidade justamente quando a demanda aumenta.
Estradas bloqueadas pioram o problema
Mesmo que um hospital tenha leitos, o paciente precisa conseguir chegar até ele.
Chuvas intensas podem:
- bloquear rodovias;
- destruir pontes;
- interromper transporte público;
- impedir circulação de ambulâncias.
Isso pode exigir mudança das rotas de atendimento e transferência de pacientes para outras cidades.
É por isso que planejamento regional é importante.
Energia elétrica é outro ponto crítico
Hospitais possuem geradores, mas uma interrupção prolongada pode criar dificuldades.
Energia mantém funcionando:
- respiradores;
- equipamentos de UTI;
- refrigeração de medicamentos;
- sistemas de informação;
- iluminação;
- aparelhos de diagnóstico.
Eventos extremos podem derrubar redes elétricas justamente quando hospitais mais precisam de capacidade.
Saúde mental também entra na emergência
Os efeitos não terminam quando a chuva para.
Perder casa, familiares, emprego ou pertences pode causar grande sofrimento psicológico.
O Ministério da Saúde inclui impactos sobre a saúde mental entre os efeitos relevantes dos desastres e das mudanças climáticas.
Por isso, equipes de resposta precisam oferecer também suporte psicossocial.
O Brasil já está tentando mapear os riscos antes
Durante encontros regionais realizados em Fortaleza, Brasília e Porto Alegre, gestores trabalharam com uma metodologia internacional de avaliação de riscos para construir cenários e identificar populações vulneráveis.
Os encontros analisaram temas como:
- vigilância em saúde;
- assistência;
- saúde indígena;
- comunicação de risco;
- continuidade dos serviços.
O objetivo é saber antecipadamente quais recursos serão necessários.
El Niño será igual em todo o Brasil?
Não.
Esse talvez seja o ponto mais importante.
O mesmo fenômeno pode provocar seca em uma região e chuva excessiva em outra.
Por isso, um hospital em Manaus pode precisar preparar-se para fumaça e estiagem.
Uma unidade no Sul pode precisar de protocolos para enchentes.
Já no Sudeste, ondas de calor e tempestades podem ocorrer no mesmo período.
El Niño muito forte significa desastre garantido?
Não.
A classificação do fenômeno indica intensidade das condições oceânicas e atmosféricas, mas não permite afirmar que toda cidade sofrerá um desastre.
O boletim federal aponta mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte entre setembro e novembro.
Isso aumenta a necessidade de preparação, mas os impactos reais dependerão de onde e como os eventos climáticos ocorrerem.
Preparação pode reduzir mortes
Antecipação faz diferença principalmente em grupos vulneráveis.
Antes de uma onda de calor, por exemplo, municípios podem alertar:
- idosos;
- unidades de saúde;
- escolas;
- instituições de longa permanência.
Antes de grandes chuvas, podem organizar:
- abrigos;
- ambulâncias;
- estoques;
- equipes;
- rotas de evacuação.
O objetivo é reduzir o número de pessoas que chegam ao hospital em estado grave.
O impacto também é econômico
Quando hospitais ficam sobrecarregados, o custo vai além da saúde.
Eventos extremos podem gerar:
- afastamentos do trabalho;
- perda de produtividade;
- destruição de infraestrutura;
- aumento de gastos públicos;
- interrupção de empresas;
- despesas emergenciais.
Por isso, preparação antecipada também pode reduzir prejuízos econômicos.
Quem mais corre risco?
Entre os grupos considerados mais vulneráveis estão:
- crianças;
- idosos;
- gestantes;
- pessoas com deficiência;
- pessoas com doenças crônicas;
- populações de baixa renda;
- comunidades indígenas e tradicionais.
Pessoas com menos acesso a ar-condicionado, água tratada, transporte e moradia adequada também podem sofrer mais durante eventos extremos.
O que a população pode fazer?
Durante períodos de calor extremo:
- beber água regularmente;
- evitar exposição prolongada ao sol;
- acompanhar crianças e idosos;
- procurar atendimento diante de sintomas graves.
Em enchentes:
- evitar contato com água contaminada;
- não consumir alimentos atingidos;
- seguir alertas da Defesa Civil;
- procurar orientação médica se houver exposição ou sintomas.
Informações oficiais locais devem ter prioridade porque os riscos mudam de região para região.
Conclusão: El Niño pode virar uma emergência de saúde, não apenas climática
O Brasil está se preparando para um ciclo de El Niño que pode alcançar intensidade muito forte, com probabilidade superior a 90% entre setembro e novembro de 2026.
Os 26 estados e o Distrito Federal estão envolvidos na elaboração de planos de enfrentamento com apoio do Ministério da Saúde.
O desafio é grande porque os efeitos serão diferentes pelo país:
seca e queimadas no Norte e Centro-Oeste, calor e seca no Nordeste, ondas de calor e temporais no Sudeste e chuvas intensas no Sul.
Para o SUS, isso significa preparar hospitais não apenas para vítimas imediatas de desastres, mas também para doenças respiratórias, desidratação, leptospirose, dengue, problemas cardiovasculares e impactos na saúde mental.
Quanto mais cedo essa preparação acontecer, menor tende a ser a pressão sobre os hospitais quando os eventos extremos realmente chegarem.
Perguntas frequentes
O El Niño de 2026 será forte?
Órgãos federais apontam mais de 90% de probabilidade de intensidade muito forte entre setembro e novembro de 2026.
Todos os estados estão se preparando?
O Ministério da Saúde mobilizou gestores dos 26 estados e do Distrito Federal para elaborar planos estaduais de enfrentamento.
Quais doenças podem aumentar?
Entre os riscos estão desidratação, problemas cardiovasculares e respiratórios, leptospirose e doenças transmitidas por mosquitos, como dengue e chikungunya.
Qual região pode sofrer mais com enchentes?
O plano federal destaca risco de chuvas intensas e inundações no Sul, embora temporais também possam atingir outras regiões.
Quando será o período mais crítico?
O Ministério da Saúde trabalha com uma janela crítica entre outubro de 2026 e março de 2027.



