O Brasil acaba de dar um passo importante para reduzir sua dependência de tecnologias de saúde desenvolvidas no exterior.
No fim de agosto de 2026, foi oficializado em Belo Horizonte o primeiro Centro de Competência em Terapias e Vacinas com RNA do país, coordenado pelo Centro de Tecnologias de Vacinas da UFMG. O projeto recebeu R$ 60 milhões por meio de uma parceria entre o Ministério da Saúde e a Embrapii.
A proposta é transformar pesquisa científica em produtos que possam chegar ao SUS, com foco tanto em vacinas quanto em terapias baseadas em RNA.
Entre as doenças que já aparecem na carteira de projetos estão dengue, malária, doença de Chagas, leishmaniose, influenza e câncer.
O que é esse novo centro?
O novo Centro de Competência em Terapias e Vacinas com RNA, chamado de CTV-RNA, será coordenado pela UFMG.
Ele foi criado para aproximar:
- universidades;
- centros de pesquisa;
- startups;
- empresas;
- indústria;
- Sistema Único de Saúde.
A ideia é evitar que boas pesquisas brasileiras fiquem apenas no laboratório.
O objetivo é criar uma estrutura capaz de levar tecnologias de RNA até etapas de testes, produção e eventual uso pela população.
Quanto será investido?
O aporte específico para o centro da UFMG é de R$ 60 milhões.
Mas o programa brasileiro de RNA é maior.
O Ministério da Saúde informa que já destinou R$ 210 milhões para plataformas de RNA mensageiro envolvendo três polos:
- Fiocruz: R$ 77 milhões;
- Instituto Butantan: R$ 73 milhões;
- CTV-RNA da UFMG: R$ 60 milhões.
Ou seja, o país está criando uma estrutura nacional em vez de depender de um único laboratório.
Por que RNA virou uma tecnologia tão importante?
A tecnologia ganhou enorme visibilidade durante a pandemia de Covid-19.
Em vez de usar diretamente um vírus enfraquecido ou uma parte pronta dele, determinadas vacinas de RNA entregam ao organismo uma espécie de instrução temporária.
Essa instrução faz com que células produzam uma proteína ou fragmento específico, permitindo que o sistema imunológico aprenda a reconhecer o alvo.
A grande vantagem é a flexibilidade.
Uma mesma plataforma pode ser adaptada para diferentes doenças alterando as instruções genéticas utilizadas. O Ministério da Saúde destaca justamente essa capacidade de reaproveitar a infraestrutura tecnológica para diferentes produtos.
Quais doenças poderão se beneficiar?
A carteira atual já inclui várias doenças importantes para o Brasil.
No CTV-RNA da UFMG existem projetos relacionados a:
dengue, malária, doença de Chagas, leishmaniose visceral e influenza.
Também estão sendo estudadas aplicações contra o câncer, incluindo imunoterapias baseadas em RNA e estratégias para produção de células CAR-T usando RNA.
Isso significa que a tecnologia não está sendo estudada apenas para doenças virais.
Dengue é uma das frentes
A dengue continua sendo um dos grandes desafios de saúde pública no Brasil.
O centro da UFMG possui projeto de vacina baseada em RNA contra a doença.
Isso é relevante porque plataformas de RNA permitem alterar rapidamente a formulação durante o desenvolvimento.
Mas é importante destacar que esse projeto ainda está em fase de pesquisa.
Não significa que uma nova vacina contra dengue baseada em RNA já esteja pronta para uso.
Malária também está em estágio avançado de pesquisa
A UFMG informou possuir uma vacina de RNA contra malária em estágio considerado relativamente avançado de desenvolvimento.
Segundo a coordenação do centro, esse projeto possui características próprias e está sendo desenvolvido no Brasil.
A malária permanece especialmente importante na região amazônica, onde concentra a maior parte dos casos brasileiros.
Se uma plataforma nacional avançar, o Brasil poderá desenvolver soluções adaptadas às características epidemiológicas locais.
Doença de Chagas também entra na estratégia
Outra doença relevante é a doença de Chagas.
O Ministério da Saúde informa que existem estratégias baseadas em RNA sendo desenvolvidas para esse problema.
A doença é causada pelo parasita Trypanosoma cruzi e continua sendo um desafio importante na América Latina.
Novas abordagens poderiam ampliar as opções de prevenção ou tratamento no futuro.
Leishmaniose é outra prioridade
O centro também inclui pesquisas voltadas à leishmaniose visceral.
Esse é um ponto importante porque tecnologias de RNA não precisam ficar restritas às doenças mais lucrativas para grandes farmacêuticas internacionais.
Uma infraestrutura nacional permite direcionar pesquisa para doenças que possuem maior impacto regional ou para o SUS.
Esse é um dos argumentos centrais do governo para investir na plataforma.
Influenza pode se beneficiar da rapidez da plataforma
A influenza é outro alvo citado.
Como o vírus sofre alterações frequentes, vacinas contra gripe precisam ser atualizadas.
Plataformas baseadas em RNA podem permitir desenvolvimento relativamente rápido de novas versões.
Isso não significa que as vacinas tradicionais serão imediatamente substituídas, mas cria uma alternativa tecnológica para futuras respostas.
Câncer talvez seja uma das áreas mais promissoras
O RNA também está sendo estudado como ferramenta terapêutica contra câncer.
No CTV-RNA há projetos relacionados a:
- imunoterapia baseada em siRNA;
- vacinas contra câncer utilizando antígenos tumorais;
- metodologias para CAR-T baseadas em RNA.
Aqui é importante fazer uma distinção.
Uma “vacina contra câncer” nesse contexto não significa necessariamente uma vacina preventiva aplicada em toda a população.
Algumas dessas estratégias podem ser terapêuticas e personalizadas, destinadas a ajudar o sistema imunológico a atacar tumores já existentes.
CAR-T baseada em RNA também está sendo estudada
A terapia CAR-T modifica células de defesa do próprio paciente para reconhecer células cancerígenas.
O centro brasileiro estuda uma metodologia envolvendo RNA para esse tipo de tecnologia.
Se funcionar, essa abordagem pode ajudar a ampliar tecnologias celulares avançadas no país.
Mas esse tipo de projeto ainda exige muitos testes antes de se tornar tratamento disponível em larga escala.
Covid-19 será o primeiro teste clínico da plataforma nacional
Enquanto alguns projetos estão mais no início, a plataforma brasileira de RNA já tem um produto avançando para testes em humanos.
A Anvisa autorizou em agosto um estudo clínico de Fase 1 da vacina de mRNA contra Covid-19 desenvolvida por Bio-Manguinhos/Fiocruz.
O estudo deverá envolver 90 adultos saudáveis entre 18 e 59 anos e avaliar principalmente segurança e resposta imunológica.
Esse projeto é importante porque pode se tornar a primeira vacina de mRNA desenvolvida integralmente no Brasil.
Quando os testes começam?
Segundo o Ministério da Saúde, o recrutamento para a primeira fase está previsto para começar no primeiro trimestre de 2027.
Portanto, ainda existe um caminho considerável até uma eventual aprovação.
Depois da Fase 1 normalmente são necessários estudos maiores para confirmar eficácia e segurança.
Não há data definida para chegada dessa vacina ao SUS.
Butantan também terá produção de RNA
O Instituto Butantan participa da estratégia nacional.
Os recursos serão usados para implantar uma unidade de desenvolvimento e produção de vacinas de RNA mensageiro.
O foco inicial inclui imunizantes contra:
- Covid-19;
- raiva.
Isso cria uma segunda frente produtiva nacional além da Fiocruz.
Fiocruz já possui uma planta piloto
A Fiocruz também avançou na infraestrutura.
A planta piloto de Bio-Manguinhos para RNA mensageiro é descrita pelo Ministério da Saúde como a primeira da América Latina com certificação de Boas Práticas de Fabricação para essa plataforma.
Essa certificação é importante porque uma tecnologia não pode chegar ao paciente apenas funcionando em laboratório.
Ela precisa ser produzida sob padrões rigorosos de qualidade e segurança.
O maior benefício pode ser a independência tecnológica
Hoje, o Brasil consegue produzir várias vacinas, mas ainda depende do exterior para tecnologias, insumos e componentes estratégicos.
Durante crises globais, essa dependência pode se tornar um problema.
A pandemia mostrou isso claramente.
Países competiram por:
- vacinas;
- reagentes;
- equipamentos;
- insumos farmacêuticos.
Ter uma plataforma própria de RNA significa que o país pode responder mais rapidamente a uma nova emergência.
Isso significa que o Brasil nunca mais precisará importar vacinas?
Não.
A ideia não é eliminar todas as importações.
O objetivo é reduzir dependência em tecnologias críticas.
Mesmo com produção nacional, cadeias internacionais continuarão sendo importantes para matérias-primas, equipamentos e cooperação científica.
Mas dominar a tecnologia central oferece mais autonomia.
A mesma plataforma pode servir para novas epidemias
Essa talvez seja uma das principais vantagens do RNA.
Uma infraestrutura pronta pode ser adaptada quando surge um novo agente infeccioso.
Em vez de começar toda a tecnologia do zero, pesquisadores podem alterar a sequência utilizada e iniciar novos estudos.
Isso pode reduzir o tempo necessário entre a identificação de uma ameaça e a criação de um candidato a vacina.
Mas RNA não resolve tudo
Também existem limitações.
Vacinas e terapias de RNA precisam superar desafios como:
- estabilidade;
- transporte;
- armazenamento;
- entrega do RNA às células;
- custo;
- segurança;
- produção em escala.
Além disso, cada doença apresenta características biológicas diferentes.
O sucesso contra Covid-19 não garante automaticamente sucesso contra dengue, câncer ou doença de Chagas.
Por que esse investimento interessa também ao mercado?
A tecnologia cria um ecossistema empresarial.
Para produzir terapias avançadas são necessárias empresas de:
- biotecnologia;
- equipamentos laboratoriais;
- nanopartículas;
- software;
- diagnóstico;
- produção farmacêutica;
- testes clínicos.
Startups também podem usar a infraestrutura do centro para desenvolver produtos.
Isso aproxima ciência e indústria.
Pode gerar empresas brasileiras de biotecnologia
Esse é um dos objetivos da iniciativa.
O novo centro foi desenhado justamente para aproximar universidades e empresas e facilitar a passagem entre pesquisa acadêmica e produto comercial ou destinado ao SUS.
Historicamente, o Brasil produz muita ciência, mas enfrenta dificuldades para transformar descobertas em produtos.
O centro tenta atacar esse chamado “vale da morte” da inovação.
E o impacto para o SUS?
Se os projetos funcionarem, o SUS pode ganhar acesso a tecnologias produzidas no próprio país.
Isso pode trazer vantagens como:
- maior segurança de abastecimento;
- negociação de custos;
- respostas mais rápidas a epidemias;
- produtos voltados a doenças brasileiras;
- redução de dependência externa.
Mas os ganhos dependerão de os projetos realmente avançarem dos laboratórios até aprovação regulatória e produção.
Quanto o Brasil já investiu nessa estratégia?
O Ministério da Saúde informa R$ 210 milhões nas três plataformas nacionais de RNA.
Além disso, somente na UFMG o ministério mantém outros 17 projetos, somando R$ 54,59 milhões, em áreas que incluem pesquisa clínica, genômica e saúde de precisão.
Isso mostra que a estratégia vai além de um único centro.
É correto dizer que o Brasil “criou o primeiro centro de vacinas de RNA”?
Sim, com uma precisão importante.
Trata-se do primeiro Centro de Competência especificamente dedicado a terapias e vacinas com RNA/mRNA, segundo Ministério da Saúde e Embrapii.
O Brasil já possuía pesquisas e plataformas de RNA antes disso, inclusive na Fiocruz, no Butantan e na própria UFMG.
Portanto, o ineditismo está no formato institucional do centro dedicado a essa área.
Conclusão: RNA pode ampliar o arsenal brasileiro contra várias doenças
O novo centro da UFMG representa um investimento de R$ 60 milhões e integra uma estratégia nacional de R$ 210 milhões para desenvolver tecnologias de RNA no país.
Os projetos já incluem doenças de grande impacto para o Brasil, como:
dengue, malária, doença de Chagas, leishmaniose, influenza, Covid-19 e câncer.
Mas há uma diferença importante entre potencial e produto pronto.
Grande parte dessas tecnologias ainda está em pesquisa.
A vacina nacional de mRNA contra Covid-19 é uma das mais avançadas e já recebeu autorização da Anvisa para iniciar estudo clínico de Fase 1.
O maior ganho, portanto, pode não ser uma única vacina.
É o Brasil passar a dominar uma plataforma tecnológica que poderá ser reutilizada contra diferentes doenças e futuras emergências sanitárias.
Perguntas frequentes
Onde fica o novo centro de RNA?
Em Belo Horizonte, Minas Gerais, sob coordenação do Centro de Tecnologias de Vacinas da UFMG.
Quanto foi investido?
O centro recebeu R$ 60 milhões. A estratégia nacional das três plataformas soma R$ 210 milhões.
Quais doenças estão sendo estudadas?
Entre os projetos estão dengue, malária, doença de Chagas, leishmaniose, influenza, Covid-19 e diferentes aplicações contra câncer.
Já existe vacina brasileira de mRNA pronta?
Ainda não aprovada para uso. A Anvisa autorizou o estudo clínico de Fase 1 de uma vacina contra Covid-19 desenvolvida pela Fiocruz.
Quando essa vacina poderá chegar ao SUS?
Ainda não há uma data. O recrutamento da primeira fase clínica está previsto para 2027, e serão necessárias outras etapas antes de eventual aprovação.



