Os carros elétricos no Brasil deixaram de ser uma pequena novidade para começar a ocupar uma fatia relevante do mercado automotivo.
No primeiro semestre de 2026, o país vendeu 215.023 veículos leves eletrificados, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). Isso significa que, de cada 100 veículos leves vendidos no período, aproximadamente 16 eram eletrificados. O volume foi 125% superior ao registrado no mesmo período de 2025.
Ao mesmo tempo, uma nova infraestrutura está aparecendo nas cidades e rodovias: os eletropostos.
A expansão levanta uma pergunta que há alguns anos parecia distante: se cada vez mais carros podem ser abastecidos com eletricidade, o que acontecerá com os tradicionais postos de gasolina?
A resposta não é que eles desaparecerão de uma hora para outra. Mas o negócio pode mudar bastante.
Carros elétricos realmente estão crescendo tanto?
Sim, embora seja necessário diferenciar os tipos de veículos.
A categoria de eletrificados inclui tecnologias diferentes, como veículos 100% elétricos a bateria, híbridos plug-in e outros tipos de híbridos.
No primeiro semestre de 2026, os eletrificados chegaram a 16% das vendas de veículos leves no país. Apenas em junho, a participação atingiu 18%.
Isso representa uma mudança expressiva em um mercado historicamente dominado por veículos a gasolina, etanol e diesel.
E existe outro indicador importante: os veículos que podem ser conectados à tomada estão aumentando rapidamente.
Segundo a ABVE, considerando os elétricos a bateria e híbridos plug-in vendidos entre 2022 e maio de 2026, o Brasil já acumulava uma frota de aproximadamente 505 mil veículos plug-in.
Quanto mais essa frota cresce, maior fica a necessidade de pontos de recarga.
Brasil já tem mais de 25 mil pontos de recarga
A infraestrutura também está acelerando.
Em maio de 2026, o Brasil chegou a 25.429 pontos públicos e semipúblicos de recarga, segundo levantamento da ABVE em parceria com a plataforma Tupi.
Em fevereiro eram 21.060.
Isso representa um crescimento de 20,7% em apenas três meses.
Os carregadores rápidos cresceram ainda mais: a rede de recarga rápida em corrente contínua (DC) avançou 33% no mesmo intervalo.
São esses equipamentos que possuem maior importância para viagens, rodovias e locais em que o motorista não pode esperar várias horas.
E é justamente nesse ponto que os postos de combustíveis encontram uma oportunidade.
Postos de gasolina podem instalar carregadores?
Sim.
A regulamentação brasileira permite a exploração comercial da recarga pública de veículos elétricos.
Segundo a ANEEL, qualquer interessado pode realizar atividades de recarga, respeitadas as regras aplicáveis, e os preços desse serviço podem ser livremente negociados.
Isso significa que um posto tradicional pode oferecer:
gasolina + etanol + diesel + carregadores elétricos.
Em vez de desaparecer, portanto, muitos estabelecimentos podem se transformar em postos de energia.
Essa adaptação provavelmente será uma das mudanças mais visíveis provocadas pela eletrificação.
Existe até projeto para levar carregadores aos postos
O assunto já chegou ao Congresso.
Um projeto de lei apresentado em abril de 2026 propõe tornar obrigatória a instalação de pontos de recarga para veículos elétricos em postos de combustíveis, priorizando estabelecimentos localizados em rodovias.
A proposta ainda está em tramitação e, portanto, não representa uma obrigação vigente para todos os postos.
Mesmo assim, mostra como a expansão da infraestrutura de carregamento entrou na agenda pública.
O grande problema para os postos: você pode carregar em casa
Existe uma diferença fundamental entre um carro elétrico e um veículo a combustão.
Você normalmente não possui uma bomba de gasolina na garagem.
Mas pode ter um carregador elétrico.
Para muitos proprietários, a rotina pode ser simplesmente:
chegar em casa → conectar o carro → dormir → sair com a bateria carregada.
Isso muda completamente a relação entre motorista e posto.
Quem utiliza um veículo elétrico principalmente na cidade pode realizar boa parte das recargas em casa ou no trabalho.
Nesse cenário, visitar um eletroposto seria mais necessário em viagens, emergências ou quando a pessoa não dispõe de carregamento residencial.
É justamente esse comportamento que pode reduzir parte do movimento tradicional dos postos no longo prazo.
Então os postos de gasolina vão acabar?
Não tão cedo.
A frota brasileira ainda possui enorme quantidade de automóveis, caminhões e motocicletas movidos a combustíveis.
Mesmo que a participação dos elétricos continue crescendo rapidamente nas vendas de veículos novos, substituir a frota existente leva muitos anos.
Além disso, o Brasil possui uma particularidade importante: o etanol.
O combustível renovável e os veículos flex tornam a transição brasileira diferente daquela observada em mercados muito dependentes exclusivamente de gasolina e diesel.
Também existem os híbridos plug-in.
Eles podem utilizar eletricidade, mas possuem motor a combustão e ainda podem precisar de combustível.
A própria ABVE informa que 52,7% da frota plug-in contabilizada entre 2022 e maio de 2026 era formada por híbridos plug-in.
Portanto, durante muitos anos, diferentes tecnologias provavelmente conviverão.
O posto do futuro pode ser muito diferente
Imagine parar durante uma viagem.
Em vez de apenas abastecer durante cinco minutos e seguir viagem, um motorista conecta o carro a um carregador rápido e permanece no estabelecimento por mais tempo.
Isso cria uma oportunidade comercial.
Postos podem ampliar serviços como:
- restaurantes;
- cafeterias;
- lojas de conveniência;
- áreas de descanso;
- supermercados;
- espaços de trabalho;
- serviços automotivos.
O posto deixa de ganhar dinheiro apenas com aquilo que entra no tanque.
Ele passa a tentar ganhar também com o tempo que o motorista permanece no local.
Nesse sentido, a eletrificação pode ameaçar parte do modelo tradicional e, ao mesmo tempo, criar outro.
Quanto tempo leva para carregar?
Depende bastante do veículo, bateria e carregador.
Um carregador residencial geralmente possui potência menor e é utilizado durante várias horas.
Já equipamentos rápidos instalados em rodovias e estações comerciais conseguem fornecer muito mais energia em menos tempo.
Mas não existe um tempo universal de recarga.
A velocidade depende de fatores como:
potência do carregador + capacidade máxima aceita pelo veículo + nível da bateria + temperatura + gerenciamento eletrônico.
Além disso, a potência costuma diminuir quando a bateria se aproxima de níveis elevados de carga.
Por isso, fabricantes normalmente divulgam tempos de carregamento dentro de determinados intervalos, como de 10% a 80%, em vez de simplesmente informar o tempo até 100%.
E quem mora em apartamento?
Esse é um dos desafios da eletrificação.
Para quem mora em uma casa com garagem própria, instalar um carregador pode ser relativamente simples quando a instalação elétrica comporta o equipamento.
Em condomínios, a situação pode exigir adaptações.
É necessário considerar capacidade da rede elétrica, medição do consumo, regras internas, segurança e quantidade de moradores interessados.
Quanto mais pessoas não puderem carregar seus veículos em casa, maior será a importância da infraestrutura pública.
Nesse cenário, postos, estacionamentos e centros comerciais ganham relevância.
Carregar um carro elétrico aumenta muito a conta de luz?
Naturalmente aumenta o consumo de eletricidade da residência.
Mas a comparação correta não é simplesmente perguntar quanto a conta de luz aumenta.
É comparar:
custo da eletricidade por quilômetro rodado × custo do combustível por quilômetro rodado.
O resultado depende do modelo do veículo, eficiência, tarifa de energia e preço do combustível.
Também é importante lembrar que a energia elétrica varia de preço.
Em agosto de 2026, por exemplo, o Brasil está sob bandeira tarifária amarela, com cobrança adicional de R$ 1,885 para cada 100 kWh consumidos.
Portanto, elétrico não significa energia gratuita.
O Brasil terá energia suficiente para tantos carros?
Essa é uma questão importante para o longo prazo.
A Empresa de Pesquisa Energética projeta crescimento expressivo da frota plug-in na próxima década.
No cenário do Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, a frota de veículos elétricos a bateria e híbridos plug-in pode passar de aproximadamente 678 mil em 2026 para 3,8 milhões em 2035.
No mesmo cenário, a demanda de eletricidade associada à eletromobilidade cresce de 627 GWh em 2025 para cerca de 7,8 TWh em 2035.
Isso exigirá planejamento da rede elétrica, infraestrutura de carregamento e gestão dos horários de maior demanda.
E as oficinas mecânicas?
A transformação não deve atingir apenas os postos.
Carros 100% elétricos possuem uma mecânica diferente dos veículos a combustão.
Eles não precisam, por exemplo, das mesmas rotinas relacionadas a:
- troca de óleo do motor;
- velas;
- correias ligadas ao motor;
- escapamento;
- vários componentes do sistema de combustão.
Por outro lado, surgem novas necessidades relacionadas a:
baterias, motores elétricos, sistemas eletrônicos, software e equipamentos de alta tensão.
Isso significa que mecânicos e oficinas precisarão se adaptar.
A transição pode criar demanda por uma nova geração de profissionais especializados.
O posto pode virar um “eletroposto”?
Essa provavelmente é uma das possibilidades mais interessantes.
A localização já é um dos maiores ativos de um posto.
Muitos estão posicionados em:
- avenidas movimentadas;
- entradas de cidades;
- rodovias;
- centros urbanos;
- rotas de viagem.
Esses mesmos lugares também são estratégicos para carregadores.
Por isso, em vez de enxergar eletricidade apenas como concorrente, redes de postos podem transformá-la em um novo produto.
O estabelecimento que hoje vende principalmente litros de combustível pode amanhã vender também quilowatt-hora, alimentação, conveniência e serviços.
Quando os carros elétricos podem superar os carros a combustão?
É impossível definir uma data precisa para o Brasil.
Depende de fatores como preço dos veículos, baterias, infraestrutura, impostos, produção nacional e preferência dos consumidores.
Também precisamos diferenciar vendas de carros novos da frota total circulante.
Mesmo que elétricos conquistem uma parcela muito maior dos emplacamentos, milhões de veículos a combustão continuarão circulando durante anos.
Portanto, uma eventual mudança de liderança nas vendas aconteceria muito antes do desaparecimento da gasolina dos postos.
Conclusão: postos podem perder bombas, mas ganhar tomadas
Os carros elétricos estão avançando rapidamente no Brasil. No primeiro semestre de 2026, os eletrificados já representaram 16% das vendas de veículos leves, enquanto a infraestrutura pública e semipública de recarga ultrapassou 25 mil pontos.
Isso não significa que os postos de gasolina estejam prestes a desaparecer.
A transformação provavelmente será gradual.
Durante muitos anos, gasolina, etanol, diesel, híbridos e eletricidade deverão coexistir nas ruas brasileiras.
Mas existe uma mudança importante: pela primeira vez, o posto tradicional começa a enfrentar uma fonte de energia que muitos consumidores podem obter na própria garagem.
Para sobreviver à transição, alguns estabelecimentos poderão precisar deixar de pensar apenas em abastecimento de combustível e começar a pensar em abastecimento de veículos.
No posto do futuro, portanto, talvez ainda existam bombas.
Mas provavelmente haverá cada vez mais tomadas ao lado delas.
Perguntas frequentes
Quantos carros eletrificados são vendidos no Brasil?
No primeiro semestre de 2026 foram comercializados 215.023 veículos leves eletrificados, correspondendo a aproximadamente 16% das vendas de veículos leves no período.
Quantos pontos de recarga existem no Brasil?
O país tinha 25.429 pontos públicos e semipúblicos em maio de 2026, segundo ABVE e Tupi.
Posto de gasolina pode cobrar para carregar carro elétrico?
Sim. A ANEEL permite a exploração comercial da recarga pública, com preços livremente negociados.
Posso carregar um carro elétrico em casa?
Sim, desde que a instalação elétrica seja adequada ao equipamento e às exigências de segurança.
Os postos de gasolina vão acabar?
Não há indicação de desaparecimento no curto prazo. A tendência é de convivência entre diferentes tecnologias e de adaptação de parte dos postos para oferecer também recarga elétrica.
Carro elétrico usa gasolina?
Um veículo 100% elétrico a bateria não. Já híbridos plug-in combinam bateria recarregável com motor a combustão.



